Um Olhar Crônico Esportivo

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sábado, março 08, 2008

O falso mito da Libertadores


O jogo parecia-me normal, típico de uma partida bem disputada da Copa Libertadores.

O estádio, um pouco pequeno, estava lotado, a torcida cantando o tempo inteiro, animando e empurrando seu time contra um visitante de nomeada, poderoso, vindo do Brasil. Faltas normais, de jogo, uma ou outra um pouco mais forte, nada porém digno de chamar a atenção.

O final do primeiro já se aproximava quando o time da casa abriu o placar.

Um gol que nasceu com um certo auxílio, digamos, do goleiro adversário.

Festa, no campo e na arquibancada.

Reiniciada a partida, o time visitante parece querer correr mais do que corria antes. Bola para fora, o pegador de bolas, um garoto, não tem muita pressa em devolver a pelota. Subitamente, aparece ao seu lado um jogador do time visitante, correndo. Tira-lhe a bola e dá-lhe um empurrão. O garoto cai e o juiz, a poucos metros, corre em direção ao jogador. Sem titubear, mostra-lhe o cartão vermelho.

Dois minutos depois, um ataque do time da casa termina com a bola fora, pela linha de meta. Na jogada, um zagueiro visitante e o atacante local caem, a bola já fora, ambos encostados à linha de meta e dentro da grande área. O zagueiro levanta-se e, antes de se afastar do atacante ainda caído, dá-lhe um chute no rosto. Não um chute forte, mas um chute. No rosto. A arbitragem não vê o lance, ocorre um início de tumulto, mas fica só por isso.

Terminado o intervalo, os times voltam a campo. O visitante, como é natural, deve voltar mais calmo, cabeça no lugar, um jogador a menos, perdendo por 1x0, é hora de esfriar o jogo e tentar o empate em rápidos contra-ataques.

Certo?

Sim, em tese.

Então foi o que aconteceu, certo?

Não, não foi assim. Com poucos minutos de jogo, cinco ou seis, não recordo, o lateral-direito visitante simplesmente dá um chute nas costas de um jogador local, pegando-lhe as costelas. O árbitro corre e, embora o lateral já tivesse um cartão amarelo, mostra-lhe o vermelho. O lateral, pela gesticulação, diz que não viu o adversário. Impossível, simplesmente.

Não fosse o intervalo, tudo isso, do gol à segunda expulsão, teria ocorrido em cerca de dez ou doze minutos.

O visitante, que todos já identificaram, perdeu o jogo por 3x0. Um resultado até pequeno, dadas as circunstâncias.

Muito bem, vamos a uma pergunta fundamental?

Por que o experiente time do Flamengo perdeu a cabeça, perdeu-se e perdeu o jogo?

A arbitragem não influiu no resultado. Cometeu alguns erros, mas aqueles típicos, comuns a todos os jogos, nada dramático. De certa forma foi até favorável ao Flamengo ao não expulsar seu capitão, Fábio Luciano, ainda no primeiro tempo.

O que, então, terá levado um time como esse, que sequer é dos que mais cometem faltas, a ter um jogador empurrando um gandula (o nome disso, embora feio, é agressão), seu experiente capitão chutando o rosto de um adversário caído, e o não menos experiente lateral chutando as costelas de um adversário?

Provavelmente, a força, ainda que inconsciente, do velho mito segundo o qual nos jogos da Libertadores vale tudo, os adversários sul-americanos batem o tempo todo, catimbam antes, durante e até depois do jogo e os árbitros nada marcam, tudo relevam. Esse mito vai mais além, e inclui agressões por parte da torcida, pedradas, barulho na rua para não deixar os jogadores adversários dormirem, entre outras coisas.

A primeira parte é falsa, embora de vez em quando tenhamos alguns jogos meio atípicos. Os times sul-americanos evoluíram, jogam hoje, na média, melhor que antigamente, quando, a rigor, somente argentinos, brasileiros e uruguaios jogavam bom futebol (mas, mesmo sendo donos de bom futebol, o “bicho” pegava feio nos jogos contra eles, inclusive entre as seleções). As provocações diminuíram e o futebol cresceu. A violência em campo diminuiu muito, as arbitragens melhoraram e como a arbitragem nos demais países sul-americanos é mais à européia que à brasileira, os jogos fluem mais e têm baixos números de faltas. A televisão vem mostrando todos os jogos para todo o continente há muito tempo, e agora para todo o mundo. Antigamente não existia a menor preocupação com o doping, ao contrário de hoje em dia. Atualmente, jogar em Montevidéu, Santiago, Buenos Aires, Bogotá, Assunção, é a mesma coisa, praticamente, que jogar em Belo Horizonte, Recife, Rio ou São Paulo. Esse velho mito, portanto, é somente isso: um velho mito.

A segunda parte, porém, ainda é muito verdadeira. Na semana anterior, no jogo contra o Atlético Nacional em Medellín, Jorge Wagner, do São Paulo, só conseguia cobrar escanteios mal e porcamente, com a proteção dos grandes escudos de cinco ou seis policiais, que aparavam as pedras atiradas contra. E os jogadores que estavam na reserva não puderam manter-se aquecidos no local a eles reservado, porque a chuva de pedras não permitia.

Dentro de campo, porém, nada anormal. O time da casa saiu na frente e o São Paulo conseguiu empatar, levando o empate até o final, sem dramas, sem acidentes ou incidentes, sem faltas mais duras, sem bate-boca destemperado com adversários ou arbitragem.

Outros jogos, todos eles, aconteceram sem problemas dignos de notas.

Volto, então, à mesma pergunta: o que provocou o nervosismo e as reações destemperadas dos jogadores rubro-negros?

Creio que a falsa necessidade de ser mais catimbeiro que o time uruguaio, bater primeiro para não apanhar depois, ou bater para revidar. Falsa por se basear no já citado mito. Tudo bobagem, felizmente. Se tais atitudes nunca foram boa prática, hoje o são menos ainda. Vale repetir: a Copa Santander Libertadores é vista em mais de uma centena de países e esse número vai crescer, assim como vai crescer, também, o número de países que verão jogos integrais e não somente compactos. Portanto, até por uma questão de imagem de nossos clubes, comportamentos desse tipo precisam ser evitados.

O Flamengo perdeu o jogo porque estava com a “cabeça quente”. Pequenas coisas como um gandula que retarda a entrega da bola ou marcações equivocadas da arbitragem, não podem ser o estopim de nervos alterados. Profissionais devem ser treinados a se comportarem com frieza diante de situações adversas. Ganham para isso, treinam para isso, são preparados, teoricamente, para isso.

Conquista-se a Copa Libertadores, hoje, simplesmente jogando futebol.

O tempo da porrada já passou há muito.

Felizmente.


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3 Comments:

  • At 11:04 AM, Blogger Pédre Cóshta said…

    Eu não vi nada do jogo. Só vi alguns lances, no globo esporte.

    Já no jogo com o Bolognesi, o Mengo mostrou o sintoma de "coragem" que, pelo que parece, mostrou de novo.
    Assim, será complicado ganhar algum jogo fora, já que os jogadores têm como prioridade mostrar coragem e deixam para plano secundário o jogar futebol.

    As expulsões foram justificadas. Não consegui encontrar o lance de Fabiano na net, mas suponho que seja semelhante ao de Lúcio, no ano passado. Direi o que disse na altura: é um lance perigosíssimo, indigno de um profissional de futebol e que deveria ter uma punição forte.

    Estou a acompanhar uma Libertadores com algum pormenor pela 1.ª vez. É uma competição não tão boa quanto a Champions mas, mesmo assim, muito interessante de ser seguida.

    Ganharia muito mais se a tal "catimba" (não sei se é esta a expressão! :-)) ) que o Emerson fala (e que, pelo que li no JA, alguns acham charmoso) acabasse por completo.

    Sobre as arbitragens, acho-as excelentes.
    Tenho para mim que as arbitragens brasileiras são as piores, pois partem de uma interpretação, em minha opinião, errada das leis de jogo.
    Pela minha observação, em Inglaterra não há mais entradas violentas que no Brasil. E, no entanto, a média de faltas por jogo anda entre as 20 e 30, no 1.º caso, e 45 a 55, no 2.º caso.

    abraces, Emerson!

    ps: desculpe-me por ter falado tanto! :-))

     
  • At 12:04 PM, Blogger ROD said…

    Fala, parceiro...

    Mais uma vez, leio sábias palavras no Olhar Crônico Esportivo.

    Foi muito triste de assistir, Emerson. Você sabe o quanto reprovo tudo isso.

    Desta vez, o clima de hostilidade não passou de uma realidade imaginária na cabeça dos jogadores, e até mesmo de Joel. O clima de guerra teve sua gênese lá na Gávea.

    Nada do que previa o script de Joel para o jogo aconteceu. O Flamengo encontrou no Estádio Parque Central, um adversário leal e que deixava jogar, e, principalmente, muito fraco tecnicamente. Sexta-Feira até postei um texto no FAIR PLAY sobre o jogo com o seguinte título: "Compêndio de como se entregar um jogo fácil". É isso mesmo, caro Emerson. A impressão que me deu, é que os jogadores já entraram em campo pré-dispostos a fazer toda aquela merda.

    Sobre Toró:
    Que Toró faça uma besteira, vá lá, ainda é muito jovem...Quem não fez suas lambanças aos 19, 20, 21 anos? Duro foi ouvi-lo numa entrevista patética após a partida:
    -Errei mesmo, agora é passado. Vou pedir desculpas aos jogadores- Agora eu pergunto, Toró: E a nós torcedores? Não vai nos pedir desculpas? No final das contas, somos nós que pagamos seu salário, comprando ingressos, produtos licenciados, aderindo à FlaTV, etc, etc, e etc..

    Sobre Léo Moura:
    Indesculpável. Um absurdo um jogador tão experiente fazer uma lambança daquelas.

    Sobre Fábio Luciano, vou lhe fazer uma confissão:
    Andava tão empolgado com o papel de liderança assumido pelo zagueirão no time e também no clube, que estava realizando uma pesquisa para escrever um post sobre o papel de um líder em um time de futebol. Cara...fiquei tão desanimado depois da agressão irresponsável de Fábio Luciano no jogador uruguaio, que até estacionei o projeto.

    Parece que o Dr. Paulo Ribeiro-psicologo do Flamengo-terá muito trabalho pela frente.

    Assim como o pédre cóshta, lhe peço desculpas pelo espaço tomado neste comentário. Acho que te peguei pra Cristo para desabafar. Quem mandou escrever sobre o assunto? hehehehe

    Um abraço deste rubro-negro apaixonado, mas que anda com o coração ferido desde quinta-feira.

    Rod

     
  • At 4:46 PM, Blogger DERLY. said…

    depois do seu post e dos dois comen
    tários não tenho nada a acrescentar
    realmente lamentável este jogo,em to
    dos os aspectos,o flamengo está deven
    do e muito,vamos ver se terá capaci
    dade para pagar sua divida e apagar
    este vexame,um abraço.

     

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